3 horas da madrugada. Sons fortes, ensurdecedores. Pancadas e choros. Andar de cima. Antes só se escutava canções de louvor a Jesus Cristo, ao Senhor, mas nessa noite a canção era de trevas. No primeiro momento não identifiquei, segundos depois consegui processar o que estava acontecendo. Sexta-feira, madrugada. Na certa, ele chegou bêbado e achou no direito de espancar sua esposa. O choro dessa mulher nunca mais irei esquecer. Era de dor. Uma dor não somente física. Senti-me angustiada como se também estivesse doendo em mim. Depois escuto um barulho de torneira aberta. Pensei: será que está limpando o estrago? Não dormi o resto da noite. O dia amanheceu e durante a manhã não ouvi nenhum ruído muito menos as canções de louvor. Nunca vi o casal. Passei semanas tentando deduzir quem poderia ser. Qualquer transeunte do prédio eu suspeitava. Mas, até hoje nunca vi a face. Passei dias sem ser incomodada pelo som alto de música gospel. A qualidade dos meus estudos melhorou. No entanto, após oito dias sem nenhuma intromissão as canções voltaram no mesmo volume alto de sempre. Sem querer usar o nome de divindades em vão (até porque eu acredito em Deus), mas Jesus Cristo deve ter curado. É só vim outra sexta-feira, ele encher a cara com álcool e certamente acordarei às 3 horas da madrugada aos sons fortes e ensurdecedores de pancadas e choros.
Crônica diária
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